Do Largo da Banana, marco zero do samba de São Paulo, a gente manda este recado. Vale pra velha guarda e pra ala das crianças, pra baiana e pro ritmista, pra costureira, pro aderecista, pra harmonia e pra quem só aparece no ensaio de sexta.
O samba é roda. Na roda ninguém fica de fora e ninguém fica acima de ninguém. Ela gira pro passado pra segurar o presente, como na capoeira, no jongo, no terreiro, no giro do mestre-sala e da porta-bandeira e na saia da baiana.
O samba cresceu protegido pelos terreiros. Por isso, toda escola tem compromisso com a herança dos baluartes e dos cardeais do samba, que ensinaram a honrar quem pisou antes nesse chão.
E esse chão tem história. Em 1967, os sambistas antigos se juntaram e arrancaram da Prefeitura a oficialização do carnaval. Ninguém deu de presente.
Mesmo oficializado, o samba seguiu perseguido. Em 1974, a polícia invadiu a quadra da Unidos do Peruche e levou Seu Carlão preso. O Bixiga chorou a morte de Pato N'Água, o apito do Vai-Vai, e Geraldo Filme pediu silêncio por ele em samba.
Por muito tempo, quiseram controlar a festa negra: dizer onde, quando e como o povo preto podia sambar. Essa história quase foi apagada. Quem viveu precisa contar, e quem chegou agora precisa conhecer.
A velha guarda e as baianas ensinaram: quem segura a escola de pé não é o dono da festa, é a comunidade. Ninguém desfila sozinho. Democracia é isso: escolher quem manda, discordar sem apanhar, ocupar a rua sem pedir licença.
A gente lembra do que passou. Da pandemia, dos amigos que foram embora, da vacina que demorou, do ano em que não teve carnaval. E lembra de 2022, quando o samba voltou pra avenida e o povo foi pra urna defender a democracia.
Samba guarda memória. O povo não pode ter memória fraca.
A gente entende quem está cansado de política. Quem esperava mais do governo, quem acha que é tudo igual, quem não foi votar no dia 4.
Mas cansar da discussão é uma coisa. Deixar de se importar com o que sustenta a vida é outra. Aposentadoria, remédio no posto, salário, folga, comida na mesa e liberdade de fé dependem de quem governa.
E não é tudo igual.
Um ex-presidente foi condenado pelo Supremo por tentar dar golpe de Estado. Agora o filho dele quer a mesma cadeira e defende perdão pra quem tentou o golpe. Você não precisa gostar de tudo no governo pra saber o que não quer de volta.
No primeiro turno, a diferença entre os dois foi de pouco mais de 2 milhões de votos. Pra quem é do samba, isso é décimo de apuração. Título se perde num décimo. Eleição também.
Por isso, nós, que assinamos esta carta, afirmamos:
- Samba é cultura, é trabalho, é sustento. Não é caso de polícia.
- Dinheiro pra cultura não é favor. É direito de quem faz e de quem assiste.
- Terreiro é chão sagrado do samba. Liberdade de fé pra todo mundo e Estado laico não se negociam.
- Quem trabalha a vida inteira tem direito a envelhecer com dignidade e a ter tempo pra viver enquanto trabalha.
- Golpe não se perdoa. Quem tenta rasgar o voto do povo responde por isso.
- Eleição se respeita. Ganhou na urna, governa. Perdeu, aceita.
- O povo preto, a periferia e as mulheres do samba não voltam pro fundo da avenida.
Dia 18 de outubro, a gente marcha. Dia 25, a gente vota. Vote como quem vai pra avenida: com a escola inteira. Leve a mãe, a tia, o vizinho, a ala toda, e combine a carona como quem combina o ônibus do desfile.
Os cardeais do samba não pediram licença pra botar o carnaval na rua. A gente também não vai pedir licença pra defender a democracia.
Democracia já. Democracia sempre. O samba não se cala!
São Paulo, outubro de 2026.
